Brasil lidera o ranking de cirurgia plástica entre adolescentes

Imagem retirada de https://epoca.globo.com/brasil-lidera-ranking-de-cirurgia-plastica-entre-adolescentes-23651891
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 A catarinense Marina de Alcântara, de 19 anos, começou a pensar em colocar silicone aos 14. “Quando fiz 16, passou a me incomodar demais, eu não me sentia bem na praia. Era a única coisa que me incomodava em meu corpo.” Ela maturou a ideia por um ano. “Conversei com meus pais. Eles não queriam, mas com o tempo entenderam que me fazia muito mal. Eu falava quase todos os dias para eles que me incomodava. Até meu pai brincava que me via com um corpo quase como o de um menino. Eu me sentia parecendo uma criança.” Para se preparar, Marina assistiu a vários vídeos na internet em que mulheres contavam suas experiências com o silicone e falavam da etapa pós-operatória. Também conversou com uma amiga que tinha colocado prótese. Aos 17 anos, já segura da decisão, foi ao cirurgião e mostrou fotos da modelo Gabriella Lenzi, de 24 anos: “Sei que ela tem silicone e achava que nela tinha ficado natural. Ela é bem pequena e tem o corpo parecido com o meu. Ficou bem parecido. Inclusive coloquei a mesma quantidade: 315 mililitros em cada seio”.

Os adolescentes brasileiros se submetem cada vez mais a cirurgias plásticas. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), nos últimos dez anos houve um aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos. Em 2016 — ano do último censo realizado pela SBCP—, foram feitas 1.472.435 cirurgias plásticas estéticas ou reparadoras em solo nacional, das quais 6,6% foram em pacientes com até 18 anos, o equivalente a 97 mil procedimentos. Esses números colocam o Brasil na liderança em número absoluto de jovens que passam por esse tipo de cirurgia. “Nos Estados Unidos, 4% dos pacientes que se submetem a cirurgia estética são adolescentes. Só no ano passado foram realizadas cerca de 66 mil cirurgias estéticas. No Brasil esse número já ultrapassou 90 mil”, explicou Jayme Farina Junior, chefe da Divisão de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).

O vídeo de Luane Loures segue o padrão dos canais de YouTube para adolescentes: “Oi gente, tudo bem?”, começa a jovem carioca de 18 anos, cabelos lisos escovados e com mechas. À época da gravação, ela tinha 17. O cenário é típico: em seu quarto, com uma parede colorida ao fundo e o armário com as roupas penduradas ao lado, ela se comunica com os cerca de 2 mil seguidores do canal. “Da última semana para cá, qualquer post, qualquer foto que eu posto no Instagram, chove comentário, chove DM ( sigla para mensagem direta no Instagram )”, continua Luane, usando uma blusa bastante decotada. “Perguntam se eu coloquei ou não silicone. E hoje eu vim esclarecer de uma vez por todas que sim, eu coloquei silicone nos seios, realizei um sonho, estou feliz demais.” O vídeo de Luane é um dos 13 mil publicados na plataforma digital com o tema “meu silicone”, com uma diferença: assim como um grupo crescente de mulheres adolescentes, Luane fez a cirurgia estética antes de completar 18 anos.

 O fenômeno é global, tanto que a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps, na sigla em inglês), em seu mais recente censo, com dados de 2017, dedicou um capítulo específico a procedimentos de aumento de seios entre mulheres de até 18 anos. Foram entrevistados 1.329 cirurgiões de todo o mundo e, entre os brasileiros, 18,6% responderam já ter feito aumento de seios em mulheres menores de idade. É o segundo país em que os cirurgiões mais fizeram esse tipo específico de procedimento, perdendo apenas para o México, onde um em cada cinco cirurgiões afirmou já ter feito cirurgias em pessoas nessa faixa etária. A diferença para os demais países é enorme: nos Estados Unidos, o terceiro colocado, apenas 7% dos entrevistados realizaram esse tipo de procedimento. Ainda segundo a Isaps, em 28,8% dos casos a motivação para colocar o implante é “puramente cosmética, para aumentar”. Em 20,8% o objetivo é corrigir “assimetrias graves”.

A carioca Ana Carla Machado, de 16 anos, se sentia “meio monstrenga, meio grotesca”. Ela relata que desde os 14 anos rejeitava o formato de seus seios e já pensava em colocar próteses de silicone para modelá-los. No início deste ano, levou imagens da modelo Isabeli Fontana ao cirurgião, que a convenceu a fazer uma redução de seios e um lifting, em vez de colocar prótese. “Eu achava muito caídos, isso me incomodava muito. Me sentia muito grande, mais gorda do que eu realmente era. E sentia que os meninos me hipersexualizavam.” Ana Carla reconheceu que “tinha gordofobia envolvida na situação” e que sofreu influência de redes sociais, como o Instagram, ao qual dedica de 3 a 4 horas por dia. Após a cirurgia, a principal reação dos colegas de escola foi perguntar se ela havia emagrecido.

 A cirurgia plástica por motivos estéticos em adolescentes divide a comunidade médica. “A maioria dos cirurgiões plásticos concorda que esses procedimentos devem ser evitados em pacientes que ainda estão em fase de crescimento, o que varia de pessoa para pessoa”, disse Farina Junior. “A gente aceita que depois de uns 18 anos de idade o corpo está estabilizando, mas existem pessoas que com 21 ainda sofrem transformação do corpo. Mas, na média, a transformação maior termina ali nos 18, 19 anos. Agora, uma menina de 15 anos que quer fazer lipo e colocar silicone nas mamas? Tem colegas que operam sem problemas, mas não é nossa recomendação.”

Para Niveo Steffen, presidente da SBCP, a cirurgia plástica pode, em muitos casos, ajudar a recuperar a autoestima do adolescente. “Na verdade, não é apenas um procedimento estético, é um ato que vai recuperar algo que faz parte da identidade, da autoestima e da aceitação”, explicou. Ele ponderou, no entanto, que a SBCP orienta que cirurgias em menores de 18 anos sejam exceções. Cada caso deve ser analisado a fundo, disse o especialista. “Às vezes é mais difícil dizer não do que realizar o procedimento. Agora, em um caso de menina de 17 anos com avaliação ginecológica e endocrinológica normais, com indícios de que aquela mama não vai mais se desenvolver, numa circunstância dessas a realização da cirurgia é absolutamente aceitável.”

Segundo a psicanalista Monica Donetto Guedes, a cirurgia gera muitas vezes descontentamento. “O pós-operatório, psicologicamente falando, é muito complexo. Há registros de casos clínicos de pessoas que chegam aos consultórios de analistas porque não ficaram felizes com o resultado. Porque isso envolve a imagem do corpo do outro. E não necessariamente aqueles mililitros que você colocou vão deixar seu peito daquele jeito, porque continua sendo o corpo do outro”, disse Guedes. “Mexer no corpo sempre é algo complexo, psicologicamente falando, ainda mais em adolescentes. Muitos distúrbios só vão aparecer no fim da adolescência, e mexer no corpo antes disso pode gerar estruturas traumáticas ainda mais complexas.”

 Apesar de ser a cirurgia mais procurada entre mulheres de todo o mundo — em 2017,  1,6 milhão de próteses de seios foram colocadas —, o implante de silicone fica em segundo lugar quando se olha para a faixa etária até os 18 anos. A cirurgia mais procurada por adolescentes é a rinoplastia — intervenção cirúrgica para remodelar o nariz —, que contabilizou 70.800 procedimentos em 2017, em comparação a 44.600 procedimentos de aumento de mamas feitos em adolescentes em todo o mundo.

Entre as diversas opções de cirurgias plásticas têm crescido também as cirurgias íntimas. A labioplastia ou ninfoplastia consiste na remoção de pele dos lábios vaginais para correção estética. Foi feita por 138 mil mulheres, em todo o mundo, e de todas as idades, em 2017. Já o rejuvenescimento vaginal — que pode ser interno ou externo — foi feito por 98 mil mulheres naquele ano. O Brasil é líder mundial em intervenções íntimas. De 2015 a 2017, o número de cirurgias desse tipo passou de 12.800 para 28.300, segundo a Isaps.

 “As mulheres descobriram que podem ter a vagina dos sonhos”, contou o cirurgião Fernando Bianco, afirmando que há influência das redes sociais nessa preocupação com a aparência da vagina. E completou: “O que nos surpreende é o número de meninas menores de 18 anos procurando a labioplastia. Calculamos que mais da metade não tinha completado a maioridade.”

A endocrinologista Marília Martins Guimarães, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, explicou que as partes íntimas do corpo feminino amadurecem em torno de três anos após a primeira menstruação. No entanto, a fase de crescimento do corpo, como um todo, só termina aos 20 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde. “O desenvolvimento puberal, que é o que envolve as mamas, por exemplo, amadurece em torno de três anos após a primeira menstruação. A partir daí, a moça já não cresce mais em altura, mas seu corpo ainda está passando por mudanças. Por exemplo, a densidade dos ossos muda. É claro que isso varia de organismo para organismo”, disse.

Entre 2015 e 2016, o sistema público de saúde britânico registrou 150 pedidos de labioplastia feitos para meninas com menos de 15 anos. “As meninas aparecem às vezes com comentários como ‘eu apenas a odeio, quero que seja removida’, e uma garota se sentir assim sobre qualquer parte de seu corpo — especialmente uma parte tão íntima — é muito triste”, afirmou Naomi Crouch, membro da Sociedade Britânica de Pediatria e Ginecologia Adolescente. Em todos os casos que presenciou, disse Crouch, a operação nunca era necessária.

fonte: epoca.globo

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