Novos olhares sobre a cirurgia plástica no corpo transgênero

Imagem: LightFieldStudios, de envatoelements
Imagem: LightFieldStudios, de envatoelements

Incompatibilidade de gênero e desejo de mudanças no corpo são, em princípio, questões complementares para a comunidade transgênero. E nesse cenário, juntamente com os tratamentos hormonais, as cirurgias plásticas ganham destaque e se tornam objeto de desejo de quem está se adequando ao gênero que se identifica. Mas existem muitas variáveis nessas relações estéticas. "Quando falamos em pacientes trans, todo mundo pensa na redesignação sexual, que é a cirurgia genital. Mas essa é apenas uma das cirurgias. Existem outros procedimentos cirúrgicos (e não-cirúrgicos) que fazem parte do processo de reafirmação de gênero", aponta a cirurgiã plástica Tatiana Moura, idealizadora do projeto TransMetha, que reúne profissionais de diferentes áreas para o atendimento para esse público específico.

Tatiana lembra que sexualidade e identidade de gênero não são a mesma coisa - e como a sexualidade não está obrigatoriamente ligada ao genital, muitas vezes o maior desejo das pessoas não é esse tipo de intervenção, nem para mulheres e para homens trans. No combo de procedimentos de reafirmação de gênero está a cirurgia da cartilagem da tireóide, para diminuir o pomo de Adão, o aumento dos ângulos da face - com implantes e preenchimentos -, redução da parte frontal do crânio, transplantes capilares, lipoaspiração, lipoescultura e ainda outras intervenções que sejam importantes para o processo de identificação da pessoa trans.

Mas as cirurgias de mama, mamoplastia redutora ou de aumento são, em geral, as primeiras modificações buscadas. “A mamoplastia redutora tem como objetivo a retirada das glândulas mamárias, gordura e pele em excesso da região para que as mamas fiquem correspondentes ao gênero com o qual o paciente se identifica. Já nas mulheres trans, o uso de hormônios já confere um certo aumento das mamas, mas a mamoplastia de aumento, com implante de silicone, garante o maior volume dos seios, sendo que o tamanho da prótese pode variar de acordo com o caso e deve ser escolhido em uma conversa entre o cirurgião e a paciente, levando em consideração fatores como o corpo, o tamanho do tórax e a estatura", explica a cirurgiã plástica Beatriz Lassance, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e da Isaps (International Society of Aesthetic Plastic Surgery).

Nos tratamentos da comunidade transgênero, essa conversa sincera com o cirurgião é um passo definitivo. "Normalmente as pessoas já chegam com o objetivo claro. Cabe ao profissional entender se o desejo está de acordo com o que é possível. Se chega um paciente que quer fazer redesignação sexual, uma neovagina, por exemplo. Mas aquela mulher trans não viveu muito tempo como mulher, nem se vestindo, nem vivendo socialmente, é muito arriscado. A cirurgia de redesignação é mutilante. Não tem reversão. É diferente da hormonioterapia. Se parar de tomar hormônio, os caracteres sexuais do sexo anterior voltam", alerta Tatiana Moura. "No Brasil, a redesignação é uma questão jurídica. Por isso muitos pacientes vão para Tailândia fazer a neovagina porque lá não tem burocracia nenhuma. Por aqui, de acordo com a última portaria a que tive acesso, precisa ter pelo menos dois anos de terapia com psicólogo ou psiquiatra para poder fazer".

Para Tatiana, a principal motivação para que uma pessoa trans decida por uma cirurgia é interna. "Os processos cirúrgicos tem mais a ver com a identificação do próprio corpo do que com a imagem que eles desejam passar para a sociedade. Se a busca fosse para passar despercebido, eles não enfrentariam todas essas transformações e seguiriam com o corpo de nascença. É mais sobre uma aceitação pessoal. O preconceito vai acontecer de qualquer modo. Então, já que vai acontecer, que ele se sinta melhor com a aparência que se identifica", conclui.

Nem todes querem mudar
É importante entender que a alta busca em clínicas cirúrgicas não significa que toda a pessoa trans tem o desejo ou a necessidade de mudar. Ou ainda, que precise de intervenções intensas. A psicanalista Lívia Lourenço, da Casa 1, centro de cultura e acolhimento de pessoas LGBT, concorda que algumas questões estéticas ainda se apresentam importantes, sobretudo a mastectomia e os implantes de silicone nos seios e nas nádegas. Mas aponta que esse é um comportamento que está mudando. "De alguma forma, esses marcadores, com o decorrer dos anos, vêm se afrouxando. Muito pelo perfil de alguns personagens, algumas pessoas que vão se tornando referência com outros modelos de beleza e que de alguma forma trazem um discurso mais libertário com relação a essas questões. Acho que isso é algo que vem se apresentando cada vez mais, mas não sem muito sofrimento, não sem muita dor. Não sem muita vontade de pertencer - e ao mesmo tempo se sentindo sempre muito inadequado.", completa.

Lívia conta que tem observado uma narrativa muito forte sobre autenticidade, sobre percorrer o próprio caminho: "É claro que aparecem muitas inconformidades, mas de um modo geral não vem acompanhado de um decreto, um mandato de 'eu preciso fazer uma cirurgia', e tem se aberto outras vias possíveis".

fonte: Marie Claire

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